Vejam, meus filhos, o gatinho preto,
sentado no cimo desta história. Pois ele nem sempre foi dessa cor. Conta a mãe
dele que, antes, tinha sido amarelo, às malhas e às pintas. Tanto que lhe
chamavam o Pintalgato.
Diz-se que ficou desta aparência, em
totalidade negra, por motivo de um susto. Vou aqui contar como aconteceu essa
trespassagem de claro para escuro. O caso, vos digo, não é nada claro.
Aconteceu assim: o gatinho gostava de
passear-se nessa linha onde o dia faz fronteira com a noite. Faz de conta o
pôr-do-sol fosse um muro. Faz mais de conta ainda os pés felpudos pisassem o
poente.
A mãe se afligia e pedia:
- Nunca atravesse a luz para o lado de
lá.
Essa era a aflição dela, que o seu
menino passasse além do pôr de algum Sol. O filho dizia que sim, acenava
consentindo. Mas fingia obediência. Porque o Pintalgato chegava ao poente e
espreitava o lado de lá. Namoriscando o proibido, seus olhos pirilampiscavam.
Certa vez, inspirou coragem e passou
uma perna para o lado de lá, onde a noite se enrosca a dormir. Foi ganhando
mais confiança e, de cada vez, se adentrou um bocadinho. Até que a metade
completa dele já passara a fronteira, para além do limite.
Quando regressava de sua
desobediência, olhou as patas dianteiras e se assustou. Estavam pretas, mais
que breu.
Escondeu-se num canto, mais enrolado
que o pangolim. Não queria ser visto em flagrante escuridão.
Mesmo assim, no dia seguinte, ele
insistiu na brincadeira. E passou mesmo todo inteiro para o lado de além da
claridade. À medida que avançava seu coração tiquetaqueava. Temia o castigo.
Fechou os olhos e andou assim, sobrancelhado, noite adentro. Andou, andou,
atravessando a imensa noitidão.
Só quando desaguou na outra margem do
tempo ele ousou despersianar os olhos. Olhou o corpo e viu que já nem a si se
via. Que aconteceu? Virara cego? Por que razão o mundo se embrulhava num pano
preto?
Chorou. Chorou. E chorou.
Pensava que nunca mais regressaria ao
seu original formato. Foi então que ouviu uma voz dizendo:
- Não chore, gatinho.
- Quem é?
- Sou eu, o escuro. Eu é que devia
chorar porque olho tudo e não vejo nada.
Sim, o escuro, coitado. Que vida a
dele, sempre afastado da luz! Não era de sentir pena? Por exemplo, ele se
entristecia de não enxergar os lindos olhos do bichano. Nem os seus mesmo ele
distinguia, olhos pretos em corpo negro. Nada, nem a cauda nem o arco tenso das
costas. Nada sobrava de sua anterior gateza. E o escuro, triste, desabou em
lágrimas.
Estava-se naquele desfile de queixas e
tristezas quando se aproximou uma grande gata. Era mãe do gato desobediente. O
gatinho Pintalgato se arredou, receoso que a mãe lhe trouxesse um castigo. Mas
a mãe estava ocupada em consolar o escuro. E lhe disse:
- Pois eu dou licença a teus olhos:
fiquem verdes, tão verdes que amarelos.
E os olhos do escuro de amarelaram. E
se viram escorrer, enxofrinhas, duas lagriminhas amarelas em fundo preto.
O escuro ainda chorava:
- Sou feio. Não há quem goste de mim.
- Mentira, você é lindo. Tanto como os
outros.
- Então porque não figuro nem no
arco-íris?
- Você figura no meu arco-íris.
- Os meninos têm medo de mim. Todos
têm medo do escuro.
- Os meninos não sabem que o escuro só
existe é dentro de nós.
- Não entendo, Dona Gata.
- Dentro de cada um há o seu escuro. E
nesse escuro só mora quem lá inventamos. Agora me entende?
- Não estou claro, Dona Gata.
- Não é você que mete medo. Somos nós
que enchemos o escuro com nosso medos.
A mãe gata sorriu bondades, ronronou
ternuras, esfregou carinho no corpo do escuro. E foram carícias que ela lhe
dedicou, muitas e tantas que o escuro adormeceu. Quando despertou viu que as
suas costas estavam das cores todas da luz. Metade do seu corpo brilhava,
arco-iriscando. Afinal?
O espanto ainda o abraçava quando
escutou a voz da gata grande:
- Você quer ser meu filho?
O escuro se encolheu, ataratonto.
Filho? Mas ele nem chegava a ser coisa alguma, nem sequer antecoisa.
- Como posso ser seu filho se eu nem
sou gato?
- E quem lhe disse que não é?
E o escuro sacudiu o corpo e sentiu a
cauda, serpenteando o espaço. Esticou a perna e viu brilhar as unhas,
disparadas como repentinas lâminas.
O Pintalgato até se arrepiou, vendo um
irmão tão recente.
- Mas, mãe: sou irmão disso aí?
- Duvida, Pintalgatito? Pois vou lhe
provar que sou mãe dos dois. Olhe bem para os meus olhos e verá.
Pintalgato fitou o fundo dos olhos da
sua mãe, como se se debruçasse num poço escuro. De rompante, quase se derrubou,
lhe surgiu como que um relâmpago atravessando a noite.
Pintalgato acordou, todo estremolhado,
e viu que, afinal, tudo tinha sido um sonho. Chamou pela mãe. Ela se aproximou
e ele notou seus olhos, viu uma estranheza nunca antes reparada. Quando olhava
o escuro, a mãe ficava com os olhos pretos. Pareciam encheram de escuro. Como
se engravidassem de breu, a abarrotar de pupilas.
Ante a luz, porém, seus olhos todos se
amarelavam, claros e luminosos, salvo uma estreitinha fenda preta. Então, o
gatinho Pintalgato espreitou nessa fenda escura como se vislumbrasse o abismo.
Por detrás dessa fenda o que é que ele viu? Adivinham? Pois ele viu um gato
preto, enroscado do outro lado do mundo.
Texto transcrito do Livro "O gato e o escuro" de Mia Couto (2010)
Postado por: Mary Azambuja e Fernada Oliveira
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