Katherine
Mansfield nasceu
em 14 de outubro de 1888, em Wellington, Nova Zelândia. Filha de pais ingleses,
de 1903 a
1906 estudou na Inglaterra. Voltou a Wellington, onde exerceu atividade
literária principiante. Convenceu seu pai a continuar seus estudos na
Inglaterra, para lá retornando em 1908. Faz e desfaz no mesmo dia um casamento,
em março de 1909, em
Londres. Fica grávida, já em outra ligação amorosa. Passa uma
temporada na Alemanha com sua mãe, e em junho sofre um aborto. Volta a Londres
em 1910 e um ano depois publica In a German Pension, seu primeiro volume de
contos. Em meio a uma conturbada vida afetiva, sexual e social, vê seu irmão
morrer, em 1915, durante a guerra. Surgem os primeiros acessos de tuberculose.
Em 1918 publica seu segundo volume de contos: Prelude. Em
1920, outro volume: Je Ne Parle Pas Français. Em 1921, Bliss and Other Stories.
Em 1922, The Garden Party and Other Stories. Com o agravamento da tuberculose,
tenta tratar-se na Suíça, em 1922. Morreu no dia 09 de janeiro de 1923, aos 34
anos de idade. Sua consagração ocorreu após a morte. Teve mais de dez títulos
póstumos, entre relatos curtos, cartas e diários. Hoje é considerada um dos
maiores nomes da literatura inglesa. Dela disse Virginia Woolf, que a
considerava o maior nome de contista na língua inglesa: "eu tinha ciúme do
que ela escrevia".
Disponível em: http://www.releituras.com/kmansfield_bliss.asp
. Acesso em: 16/11/2009 - 23:45
Análise do conto
“Bliss” de Katherine Mansfield:
Conto
narrado em 3ª pessoa e expressão de pensamentos e diálogos em 1ª pessoa. Bliss
é uma palavra em Inglês que não há uma tradução correspondente para o
português, assim como a nossa “saudade” não há correspondentes em outras
línguas, e dá a idéia de êxtase, felicidade absoluta, mas, ainda que não seja
bem isso, ficarei com o termo Felicidade, por ser o mais próximo
correspondente.
O
conto narra o estado de absoluta e inexplicável Felicidade de Bertha Young. Sua
tentativa de explicar a si mesma a razão deste sentimento intercalando com as
situações do dia vivido. O nome Young significa Jovem, que é como ela se sente
ainda, apesar de já ter 30 anos. Há no texto interrupções de pensamentos e
ações de Bertha durante toda narrativa, como no trecho inicial: [...] “It’s
not what I mean, because – Thank you, Mary” she went into the hall. “Is Nurse
back?”
A
presença constante de repetições como a enfatizar o sentimento ou pensamento de
Bertha e seu receio de olhar-se no espelho nos trás a questão do duplo neste
conto. A forma como ela se vê no espelho e sua admiração por si mesma, com o
espelho frio lhe devolvendo a imagem de uma mulher radiante, quente, com um ar
de quem espera algo... que algo divino aconteça e que ela sabe ser inevitável.
Bertha nos dá a impressão de estar prestes a ter uma epifania, um momento de
grande revelação.
A
sua relação de submissão e revolta interna se faz presente na cena em que ela
vai ver como está seu bebê e a Nanny relutantemente entrega a menina a Bertha e
ainda ralha com ela para não excitar a própria filha, e, antes disso, quando a
Babá diz que deixou a bebê puxar a orelha de um cachorro desconhecido, Bertha
sente impulsos de perguntar se não teria sido perigosa esta ação da Babá, mas
não se atreve. Ela se sente como uma menina pobre diante de uma menina rica e
sua linda boneca. Fica claro uma disputa entre a Nanny e a mãe pelo bebê.
Bertha volta a se sentir plenamente Feliz com sua bebê e tem esse momento
interrompido quando a babá volta dizendo ter um telefonema para ela. Seu marido
se atrasaria para o jantar e ela até pensa em dizer a ele o quanto se sente
Feliz naquele dia, mas não sabe se expressar.
Em
várias partes do texto Bertha se mostra ora revoltada pela sociedade ser idiota
e conservadora a ponto de reprimir os desejos das pessoas e ora por ela mesma
achar que está ficando histérica (desesperada) com este sentimento extremo.
Bertha
organiza duas pirâmides de frutas numa mesa escura, em meio à sala também
escura, fazendo com que as frutas pareçam flutuar quando ela se põe a distancia
para observar a arrumação. As pirâmides podem simbolizar o trio presente no
conto, as frutas simbolizam a prosperidade e fertilidade: tangerinas, laranjas,
maçãs, morangos, peras amarelas, uvas brancas e uvas roxas. As maçãs presentes
podem estar ligadas ao desejo sexual e é um símbolo de tentação e do pecado
original. As uvas aludem à fertilidade e hospitalidade, brancas são símbolo de
paz e pureza e a cor roxa está associada à tristeza. As tangerinas e laranjas
são frutas acidas e cítricas, podendo estar associadas aos humores dos
convidados para jantar e os morangos vermelhos são símbolo de paixão. A tigela
azul de brilho estranho e leitoso pode estar relacionada com a forma que Bertha
vê sua relação com o marido, através de um brilho leitoso, fosco, sem nitidez.
O
jogo de luz está associado ao símbolo de consciência e intensidade afetiva,
libido. As sobras são símbolos do desconhecido, do inconsciente de Bertha.
A
visão da Pereira no conto é inicialmente uma representação do estado de Bertha:
a árvore é o símbolo da vida, e a pereira carregada de flores, no auge de sua
beleza é a própria Bertha, que se veste para o jantar nas mesmas cores da sua árvore,
verde e branco, coisa que ela faz inconscientemente, pois já escolhera a roupa
antes de admirar a pereira através da janela. O farfalhar das saias de Bertha é
uma descrição clássica da feminilidade e da mulher. Ascender a lareira (fogo) e
o ato de abraçar a almofada demonstram a intensidade de sentimentos e o tapar
de olhos é como se não conseguisse suportar tamanha Felicidade.
O
desprezo de Harry (marido de Bertha) pela Miss Fulton é um tanto quanto
agressivo, mas agrada a esposa. Ela está encantada com Miss Fulton, sua beleza
e estranheza de quem esconde algo, não permitindo que ninguém veja mais dela do
que ela deseja mostrar. É retratada como uma mulher loira, fria e sem
expressão. Sua maneira de se sentar com a cabeça inclinada e sorridente intriga
Bertha, pois a leva a crer que Miss Fulton esconde algo e ela deseja saber o
que é. Seu nome Pearl significa pérola, símbolo feminino semelhante à prata,
que por sua vez é símbolo de Vênus, de pureza e da Lua, por seu brilho prateado
e a pronúncia de pearl é parecida com pear (pêra). Para Miss Fulton, a pereira
sob a luz da lua é símbolo de tristeza, de algo inalcançável, mas ela e Bertha,
ao olharem a pereira, percebem-se no mesmo estado de absoluta Felicidade.
Harry
parece ser um marido atencioso, apesar de estar sempre com pressa e sua forma
de destratar a Miss Fulton apenas se revela como um jogo de contrários para não
levantar suspeitas de seus reais sentimentos e envolvimento com ela.
Temos
também o casal Norman Knights, que significa guerreiros Normandicos, Mug
(Caneca) está abrindo um teatro e Face (Rosto), sua esposa, é uma decoradora de
interiores. O que mais chama a atenção no casal é o casaco de Face: laranja de
borda de macacos pretos (símbolo do desprezível do homem, criatura animalesca
podendo indicar falsidade). Eddie Warren (warren significa criador de coelhos –
símbolo de fertilidade também) é um escritor de poemas, pessoa popular e meio
afetada. Ele chega para o jantar falando da lua e há comentários sobre suas
meias tão brancas como a própria lua.
Sua
visão do gato negro (sombra) e do gato cinza (prata/ depressão) no jardim, com
tulipas que expressam o amor perfeito, está ligado ao pressentimento, ao
inconsciente e intuição. No caso de Bertha, que sente um arrepio ao ver os dois
gatos é como se pressentisse algo de ruim no seu Amor Perfeito, algo se
esgueirando como o gato cinza e a sombra do gato negro.
No
final, Warren parece querer distrair Bertha para que Harry e Miss Fulton possam
conversar a sós, mas ainda assim ela percebe a traição do marido e, ao
despedir-se de Warren e Pearl, tem novamente o pensamento no gato preto
seguindo o gato cinza.
Bertha
é a visão da pereira em seu auge, após a descoberta da traição se sente imóvel,
cheia de vida dentro de si, amor e fertilidade, desejando seu marido e
decepcionada com ele e consigo. A pronúncia de pear tree (pereira), ao ser
repetido por três vezes faz alusão a “par three”, que é um par para três ou uma
pereira para três, o triângulo amoroso.
Boa análise.
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